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13.7.07

encontre-me na venda de carnes

O cheiro que subia do balcão e das geladeiras, mesmo fechadas, escondia a força de qualquer outro sentido que não fosse do olfato. Ela esfregou a manga do vestido florido no nariz, tentando ser discreta, era só uma coceirinha, quis fingir, e fungou para justificar tanto o pano visitado.
- Quatrocentas gramas de picanha, ok? - Uma mosca pousou sobre o nariz arrebitado. Era apenas uma de tantas que sobrevoavam os pedaços de bois avermelhados, músculos e costelas amontoados pelo balcão. - Essa aqui é fresquinha, chegou hoje. - Ela ainda fingiu uma gripe para tapar o nariz vez ou outra, e olhou as mãos ensangüentadas do açougueiro. Um anel de ouro fosco tentava brilhar sob o sangue. - Pode ser essa! - Escolheu. - Mas me diga uma coisa o senhor, tão moço, já trabalha aqui faz tempo? - E olhava insistente o anel. Nem ouviu direito a resposta. Os outros sentidos começavam a ignorar o cheiro de carne, e só conseguia pensar nas mãos bonitas, aquelas, que rosto aquele, tão novo, já trabalhava muito, lembrava dele dizendo, algo como sim senhora, desde menino. E o pior de tudo era que mesmo tão moço, além de trabalhar, já segurava um anel.
A caminho de casa, não conseguia esquecer das mãos e do sorriso. Seu cheiro de carne ficara impregnado no nariz arrebitado, em todo o vestido florido, em toda sua pele. - Mas é casado, o menino. - Suspirou, enquanto salgava a picanha.
O sol ainda estava fraco quando saiu para comprar mais pedaços esquartejados de bodes e bois. Colocou o vestido florido, contou o dinheiro e perfumou-se. Um pouquinho também no nariz, quem sabe assim o cheiro podre não deixava vertigem. Não é nem preciso julgar-se esperto para entender porque estava ali no dia seguinte, e porque resolveu ir em todos os outros que conseguiu. Belos vestidos, boas colônias e dinheiro. Os olhos brilhavam sobre o anel de brilho parco. As visitas diárias também vinham cheias de uma esperança mordaz, uma vontade de que, como por encanto, aquele anel desaparecesse. Queria encontrá-lo magro, triste, de olhos fundos como os dela estavam, pensando tanto nas mãos do açougueiro, querendo ouvir da boca dele, com as mãos órfãs do anel, um desabafo de que a mulher o deixara. Mas quantos e quantos dias consumiram-na, e que ela consumiu a comprar carnes, a olhar para ele, obcecada por encontrar as belas mãos sem o maldito laço dourado sempre banhado em sangue. E quando a boca vai aos olhos, até mesmo os mais dispersos percebem, o homem notou que a dona dos vestidos floridos, sempre perseguindo-o com a vista, arrastava todas as barras de panos por ele. A resposta veio de imediato, que nunca mais a atendeu. Também dos sujeitos mais aéreos percebem o desprezo. Dia após dia ela insistiu em visitá-lo, a pretexto de lagartos, picanhas e bistecas, esperando o dia de vê-lo sorrindo, exibindo os dedos sem a aliança. Mas o desejo só nutria a frustração, até que morresse aquela planta verde e robusta de expectativas. Sim, murchou. Durante os dias que seguiram à morte da planta, resolveu mudar o caminho. Vestiu seu vestido de flores e andou pela rua paralela à que gostaria de estar, com a certeza de uma dor que se perdia por outros odores de frutas e verduras misturados às carnes congeladas de um supermercado.



diana melo - 11:17 [+]
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