início | email

21.2.09

Eram por volta de onze horas quando o despertador tocou. Ele finalmente iria conhecê-lo. Alegria e ansiedade lhe tomavam os nervos. Como quem vai conhecer aquele grande amigo do melhor amigo que tanto fala como têm a ver, ele se vestiu apressado. A mulher não o veria quando passasse sorrateiro pela sala, nem diria nada às crianças, nem iria ao trabalho. Ele iria conhecê-lo. Pisou fora de casa e caminhou dois quarteirões até ser tomado pela vertigem do desconhecido. Aquelas ruas largas não eram as mesmas do interior que deixara há duas semanas. Os carros e os ônibus só confundiam mais quando pensava em como chegar lá. Não saberia como fazer, mas caminhou obstinado. Nem ônibus, nem direção, nem caminho. Ainda assim, precisava conhecê-lo. Aos tantos passos, as ruas e os prédios eram outros, tão outros, que nunca avistara. Sentia dor e alegria, um rubor temeroso da liberdade que o acompanhava. E não parava nunca. Algumas vezes, diminuía os passos para não esbarrar em alguém, ou mesmo para tentar sentir e imaginar o cheiro, pensando ser como dos riachos quando recebem o vento em suas águas, cheiro adocicado de ervas. Só sentia o do suor que descia pelos braços. Resolveu abordar uma mulher:
- Onde encontro o mar?
Assustada, ela apontou para frente.
Ele sorriu e seguiu, seguiu, seguiu até anoitecer e perceber que estava completamente perdido.

diana melo - 17:39 [+]
Comentários:
21.1.09
Enquanto caminhava, suas pernas carregavam dois pesos, e tudo o que pensava enquanto passava por carros, postes, pessoas, cachorros sujos, postes, pessoas e carros sujos era que guardava ainda um sentimento ruim. Algo como uma corrente amarrava e pesava o movimento dos passos. Depois de esbarrar em dois cahorros sujos e incontáveis pessoas, carros e postes sujos, lembrou da semana passada inteira. Não houve um dia em que se sentiu à vontade. Não sabia se o incômodo era o vizinho no trabalho, o chefe, o sujeito que cruzava quando ia almoçar no self-service, ou ele mesmo. Mas mal-estar por mal-estar, não interessava a culpa, ele sentia. Não poderia nunca, a passos curtos, ser o que seu chefe esperava, não poderia nunca ser o que a mulher cobrava, nem poderia nunca ser o companheiro de trabalho que o colega queria, ele não poderia nunca. Sentado num banco perto a uma praça que passava sempre, circulando carros, pessoas e cachorros sujos, ele pôs a mão na testa e lamentou. Lamentou nunca poder ser outro que não ele mesmo. Lamentou e lamentou tanto que quando levantou e cruzou aqueles carros e pessoas e alguns cachorros sujos, já podia andar melhor, com as pernas que não doíam. A vida ensinou tarde ou cedo que nada resolvido, já se acertou. Ele não poderia nunca ser o que o chefe, o amigo, a mulher, o colega, as pessoas e os cachorros sujos esperavam encontrar, e nada mais pesava.

diana melo - 13:55 [+]
Comentários:
27.10.08
o caderno rosa dela

O caderno de capa rosa tinha uma hello kity no meio. Ele viu. Deixa que eu levo, disse quando o sinal de pedestres abriu. Ela agradeceu com um sorriso, que ele entendeu que era tímido, e tímido também ficou. Procurou a cabeça agigantada da hello kity. Abriu o braço esquerdo como um triângulo e pediu que ela enfiasse o braço. Vamos casar, ele pensou em dizer, enquanto ela se limitava a sorrir e ser guiada por ele, em confiar o caderno rosa ao seu braço direito. Os outros corriam, esbarravam e gritavam que o tempo era curto, e eles sorriam lentos, vagarosos, a caminho do altar. Cada faixa branca no chão levava pequenos passos a caminho do outro lado da rua. Pareciam tão felizes, tão serenos, que nem perceberam quando os carros começaram a andar outra vez. O triângulo se desfez para apertar a mão dela e beijar. Felizes, serenos e vagarosos, eles se despediram do outro lado da rua. Tão feliz que estava, ele olhou como se quisesse guardar o momento, e fugiu mesmo sereno. Tão lenta que ela estava, não percebeu sua mão sem o caderno rosa.

diana melo - 17:30 [+]
Comentários:
3.8.08
Eu tenho 125 pregos no coração. Eu sei disso porque na semana passada acordei com a cama cheia de sangue. Era um sangue claro, que molhava a cama e o chão. Eu chamei todo mundo de perto para ver, mas ninguém conseguiu. Alguns disseram que era só um pouco de água, outros, mesmo sem crer, pediram para que limpasse. Eu deixei como estava, e durante o dia secou. Nos seguintes, ele apareceu mais claro, noutros mais grosso, mas eu conseguia sentir, todos os variados dias, cada um dos 125 pregos. Minha mãe disse que, na minha idade, quem sente dor no peito tem gases. Eu tomei remédio e não passou. Procurei sangue vertido por pregos na cama dos meus pais, mas não havia. Nem na do meu irmão. Fiquei então pensando que eles acordavam cedo todo dia da semana para limpar o sangue do chão e trocar seus lençóis sujos, e achei aquilo muito nobre. Hoje, quando acordo e o sangue me banha de manhã, eu pego detergente e água, e ponho a colcha na máquina de lavar. O problema é o peito, que dizem ser gases, mas me dóem cada um dos 125 pregos.

"Quando a vontade e o oxigênio começaram a rarear, os insetos que dividiam o mesmo espaço passaram a partilhar do mesmo tempo. Para mim, todos os insetos eram iguais. Eu não sabia que era preciso fazer furos na tampa do pote. Eu não sabia que partilhamos o mesmo espaço, mas não partilhamos o mesmo tempo."
(Lourenço Mutarelli)

diana melo - 17:40 [+]
Comentários:
28.7.08
"barco ao mar
o chão é um vagar sem fim
aportar sem que haja porto
eu sei que meu lugar nunca é aqui
então vou sem que saiba pra onde
estou sempre longe
preciso ainda seguir"

diana melo - 01:27 [+]
Comentários:
4.6.08
Já sei mais ou menos o que quero construir. Deus há de me perdoar por querer tão pouco. Mas é tanto isso que imagino, para depois que me for, lá do alto das estrelas, ter coisa para doer de saudade. Construir um pequeno reino, para depois ir embora, até outro lugar erguer novo castelo, um castelinho, para deixá-lo em ruínas, visando a sorte de um terreno fértil, para depois ir embora e doer tudo dentro. Como um caixeiro viajante.

diana melo - 23:27 [+]
Comentários:
27.3.08
"Há folhas no meu coração.
É o tempo."

(Aldir Blanc/Cristóvão Bastos)

diana melo - 19:21 [+]
Comentários:
14.2.08
O pátio estava cheio de crianças por todos os seus lados, conversas fiadas dos grupos em concentração, bananas carameladas nas mãos e futebol. Lina encolhia os braços por entre as pernas, limpando o açúcar molhado da banana no chão.
- Ah, Lina, você não é de muitas palavras, já percebi. Hoje todos na maior conversa e você aí, sujando o que devia comer. - Marinice falava angustiada, com a boca melada de banana com areia, limpando os restos do mel pelas calças.
- Você não conversa, eu sei, sou muito astuta, entenda. Mas te aceito, sou sua amiga, não vê que perco meu tempo para conversar com você? - Insistiu o tipinho engraçado e redondo dos pés à cabeça, aperreada a encarar Lina, cada vez mais parecida com um caracol. Agora um caracol vermelho e lambuzado.
- Ei, Lina, você é muda, mas eu te gosto. Não esquenta, não. Até que você é legalzinha, mesmo muda muda muda igual uma porta. - Lina olhou para gorda Marinice e não conteve o choro. - Lina, não chora, deixa de ser esquisitinha. - O choro aumentou e Marinice apertou suas cheias mãos sobre o ombrinho da amiga sentada no chão, toda suja, e repetiu: - Mas eu gosto de você, doidinha. - Marinice era doce e terrível. Os meninos do pátio eram doces e terríveis. Lina era doce e terrível.

Lembranças açucaradas de Lina numa tarde de verão, vinte e dois anos depois.

diana melo - 22:45 [+]
Comentários:
16.10.07
Canções de nunca acabar

Had Gadia. "Meu pai o comprou por apenas dois suz/O cordeiro! O cordeiro!/Meu pai o comprou por apenas dois suz/Assim conta a Haggada/Astuto, o gato ficou à espreita/Ele atirou-se sobre o cordeiro e o devorou/O cão que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro/Que meu pai comprou por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro!/Então veio o bastão/E se abateu sobre o cão/Que mordeu o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Ele o comprou por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro!/Então veio o fogo e consumiu o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro!/Então a água veio apagar o fogo/Que consumiu o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro/O boi que passava por ali bebeu a água que apagou o fogo/Que queimou o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro/Veio o açougueiro que matou o boi que bebeu a água/Que apagou o fogo/Que consumiu o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Então veio o Anjo da Morte que matou o açougueiro/Que matou o boi que bebeu a água/Que apagou o fogo/Que consumiu o bastão/Que abateu o cão/Que estrangulou o gato/Que devorou o cordeiro que meu pai comprou/Por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro/Por que você canta então o cordeiro?/A primavera não está aqui ainda, nem a Páscoa/Você mudou/Eu mudei este ano/E todas as noites,/Como cada noite/Eu fiz apenas quatro perguntas/Mas esta noite, me vem uma outra pergunta/Até quando durará esse ciclo infernal/Essa noite me vem uma pergunta/Até quando durará esse ciclo infernal?/Do opressor e do oprimido,/Do carrasco e da vítima/Até quando essa loucura/Alguma coisa mudou/Eu mudei este ano/Eu era um cordeiro bom/Eu me tornei um tigre/e um lobo selvagem/Eu era uma pomba, uma gazela/Hoje eu não sei quem eu sou/Meu pai o comprou por apenas dois suz/O cordeiro, o cordeiro/Nosso pai o comprou por apenas dois suz/E voltamos ao ponto de partida"

diana melo - 00:16 [+]
Comentários:
2.8.07
Começam os primeiros sinais da noite. O sino da igreja badala seis vezes, os passarinhos cantam em coro, os carros páram todos em fila no sinal, e estou à beira da porta, indo embora, meu amigo. Daquelas despedidas graves, escurecidas, silenciosas. Indo embora para nunca mais voltar.

"- Senhor meu - respondeu Sancho - retirar-se não é fugir; nem no esperar vai prova de sisudeza quando a coisa é mais perigosa que bem figurada. Próprio dos sábios é o pouparem-se de hoje para amanhã; e saiba Sua Mercê que um ignorante e rústico pode mesmo assim acertar uma vez por outra com o que chamam regras de bem governar. Portanto não lhe pese de haver tomado o meu conselho; monte no Rocinante, se pode, ou eu o ajudarei, e siga-me, que me diz uma voz cá dentro que mais úteis nos podem nesta ocasião os pés que as mãos".
(Cervantes)

diana melo - 15:10 [+]
Comentários:
13.7.07
encontre-me na venda de carnes

O cheiro que subia do balcão e das geladeiras, mesmo fechadas, escondia a força de qualquer outro sentido que não fosse do olfato. Ela esfregou a manga do vestido florido no nariz, tentando ser discreta, era só uma coceirinha, quis fingir, e fungou para justificar tanto o pano visitado.
- Quatrocentas gramas de picanha, ok? - Uma mosca pousou sobre o nariz arrebitado. Era apenas uma de tantas que sobrevoavam os pedaços de bois avermelhados, músculos e costelas amontoados pelo balcão. - Essa aqui é fresquinha, chegou hoje. - Ela ainda fingiu uma gripe para tapar o nariz vez ou outra, e olhou as mãos ensangüentadas do açougueiro. Um anel de ouro fosco tentava brilhar sob o sangue. - Pode ser essa! - Escolheu. - Mas me diga uma coisa o senhor, tão moço, já trabalha aqui faz tempo? - E olhava insistente o anel. Nem ouviu direito a resposta. Os outros sentidos começavam a ignorar o cheiro de carne, e só conseguia pensar nas mãos bonitas, aquelas, que rosto aquele, tão novo, já trabalhava muito, lembrava dele dizendo, algo como sim senhora, desde menino. E o pior de tudo era que mesmo tão moço, além de trabalhar, já segurava um anel.
A caminho de casa, não conseguia esquecer das mãos e do sorriso. Seu cheiro de carne ficara impregnado no nariz arrebitado, em todo o vestido florido, em toda sua pele. - Mas é casado, o menino. - Suspirou, enquanto salgava a picanha.
O sol ainda estava fraco quando saiu para comprar mais pedaços esquartejados de bodes e bois. Colocou o vestido florido, contou o dinheiro e perfumou-se. Um pouquinho também no nariz, quem sabe assim o cheiro podre não deixava vertigem. Não é nem preciso julgar-se esperto para entender porque estava ali no dia seguinte, e porque resolveu ir em todos os outros que conseguiu. Belos vestidos, boas colônias e dinheiro. Os olhos brilhavam sobre o anel de brilho parco. As visitas diárias também vinham cheias de uma esperança mordaz, uma vontade de que, como por encanto, aquele anel desaparecesse. Queria encontrá-lo magro, triste, de olhos fundos como os dela estavam, pensando tanto nas mãos do açougueiro, querendo ouvir da boca dele, com as mãos órfãs do anel, um desabafo de que a mulher o deixara. Mas quantos e quantos dias consumiram-na, e que ela consumiu a comprar carnes, a olhar para ele, obcecada por encontrar as belas mãos sem o maldito laço dourado sempre banhado em sangue. E quando a boca vai aos olhos, até mesmo os mais dispersos percebem, o homem notou que a dona dos vestidos floridos, sempre perseguindo-o com a vista, arrastava todas as barras de panos por ele. A resposta veio de imediato, que nunca mais a atendeu. Também dos sujeitos mais aéreos percebem o desprezo. Dia após dia ela insistiu em visitá-lo, a pretexto de lagartos, picanhas e bistecas, esperando o dia de vê-lo sorrindo, exibindo os dedos sem a aliança. Mas o desejo só nutria a frustração, até que morresse aquela planta verde e robusta de expectativas. Sim, murchou. Durante os dias que seguiram à morte da planta, resolveu mudar o caminho. Vestiu seu vestido de flores e andou pela rua paralela à que gostaria de estar, com a certeza de uma dor que se perdia por outros odores de frutas e verduras misturados às carnes congeladas de um supermercado.



diana melo - 11:17 [+]
Comentários:
22.6.07
inspiração

Pediu o arroubo das boas idéias ao puxar, insistentemente, os cabelos. Mas só tentava e lembrava, meu Deus, tantos dias meses anos perdidos por becos sombrios da própria cabeça, tudo uma barra. Nascera uma barra. O primeiro bicho que viu na vida foi um rato branco, tão belo que apertou a barriga até parar de mover o fucinho. Criou vergonha um dia e parou com isso, depois de dois preás mortos e quase um gato. Mas nem era de todo barra. Hoje avisava quando qualquer um deles se aproximava. - Sequer pisem o rabo, ou machuquem! - Horror lembrar o rato entre os dedos, sem nunca conseguir seu perdão. Talvez a barra fosse aí. Tanta rigidez que estalava o pescoço. Puxou ainda mais os cabelos à procura de novas idéias, algo que saísse dos pensamentos escuros, da lembrança do roedor. - Quando crescer, quero me permitir a tolice. - E de tanto puxar os fios, a cabeça clareou. Queria pensar em flores, e pensou. Pela primeira vez, como quem aprende a andar, dançou.

"Você é engraçado, meu caro, tem um medo tão louco de se iludir a si mesmo que recusaria a mais bela aventura do mundo para não se arriscar a uma mentira."
(sartre; a idade da razão)

diana melo - 18:12 [+]
Comentários:


This page is powered by Blogger. Isn't yours?